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FORMAR PARA SALVAR
Há 35 mil asmáticos na Beira Interior
Num universo de 450 mil habitantes (distritos da Guarda e Castelo Branco), a Beira Interior conta com cerca de 35 mil pessoas portadoras de asma – doença sem cura à vista, mas controlável. Um número que promete subir à “velocidade” impressionante de 20 a 50 por cento cada dez anos. “Estamos a ficar mais asmáticos”, disse-nos, a propósito, o alergologista do Centro Hospitalar da Cova da Beira e docente da Faculdade de Ciências da Saúde, da UBI, Luís Taborda Barata que, entretanto, está a tentar “domesticar”, a nível regional, o mal que mais consome Liza Minelli, Sharon Stone, Michelle Obama e Dalai Lama.
INFLAMAÇÃO crónica das vias aéreas, que resulta da redução ou até mesmo obstrução do fluxo de ar, a asma está na lista das doenças mais comuns, afectando mais de 400 milhões de pessoas em todo o mundo, com um aumento da prevalência na maioria dos países (20 a 50 por cento em cada dez anos), especialmente em crianças. É causa importante de absentismo escolar e laboral, de despesas muito elevadas com a saúde e de mais de cem mil mortes evitáveis por ano.
As razões para os aumentos galopantes da morbilidade e da mortalidade provocadas pela asma ainda não são bem conhecidas dos especialistas que lidam com esta patologia. Mas há coisas que estudos recentes dão como certas: mata mais negros do que brancos e mais mulheres do que homens, situando-se as taxas mais elevadas no grupo etário dos maiores de 65 anos de idade, com especial incidência nos meses de Dezembro a Fevereiro (hemisfério norte), sugerindo que uma infecção concomitante (gripe, pneumonia…) contribui para o aumento de internamentos e mortes.
Em Portugal, a asma brônquica afecta mais de um milhão de pessoas, cabendo à Beira Interior 30 a 40 mil, na sua maioria crianças, de acordo com Luís Taborda Barata, alergologista do Centro Hospitalar da Cova da Beira e docente da Faculdade de Ciências da Saúde da UBI. No entender deste médico e investigador, “é um número elevado”, tendo em conta que os distritos da Guarda e Castelo Branco somam cerca de 450 mil habitantes.
Não sendo uma doença curável, o seu controlo, como nos afirmou o mesmo especialista, “é fundamental”… até em termos de qualidade de vida. “O tratamento torna-se, em muitos casos, dispendioso” (a comparticipação ronda os 40 por cento, quando em alguns países atinge os cem por cento e os medicamentos mais eficazes não têm genéricos) “e muitos asmáticos não se cuidam por manifesta falta de meios”, situação que se acentuou nos últimos tempos, com os idosos e os desempregados a engrossarem a lista de indivíduos sem defesa contra um mal que pode matar.
Não se conhece com rigor a verdadeira origem da asma, embora se saiba que está relacionada com uma especial sensibilidade das vias respiratórias, as quais reagem de forma exagerada quando expostas a estímulos ou substâncias de índole diversa, denominados alergénios, provocando uma contracção da musculatura brônquica e congestão da sua mucosa com aumento das secreções. Isto dá lugar ao desenvolvimento de uma obstrução à passagem do ar, que provoca crises de dificuldade respiratória.
As causas da hiperactividade brônquica não são conhecidas na totalidade, contudo, vários estudos parecem comprovar a importância da hereditariedade, uma vez que uma parte significativa dos pacientes tem antecedentes familiares relevantes. De qualquer forma, e apesar da existência desta predisposição ser um requisito prévio importante, não é suficiente, segundo os especialistas, para que ocorram ataques de asma, pois estes apenas se desenvolvem quando se verificam determinados factores precipitantes.
Prevalência elevada
A asma brônquica é uma das patologias do foro alergológico estudadas na Beira Interior por Luís Taborda Barata e um dos seus alunos de doutoramento do Hospital de Amato Lusitano (Castelo Branco). Ambos são “particularmente interessados” em conhecer alguns aspectos “típicos ou diferenciadores” da doença nesta região e saber como é que podem contribuir para a sua caracterização, mas não só: o problema também lhes interessa em termos internacionais e globais.
Uma coisa é certa para já: “a asma brônquica também tem uma prevalência muito elevada nesta zona (há muita gente com a doença) e nos últimos dez anos esta situação tem vindo a aumentar de forma acentuada, o mesmo se verificando, aliás, em termos mundiais, com excepção dos países cujos valores já eram muito altos. Nestes, as taxas estabilizara”, precisou aquele especialista do Centro Hospitalar da Cova da Beira.
De referir que a maior parte das pessoas portadoras de asma brônquica “têm aquilo que se chama asma brônquica alérgica”, ou seja, “são normalmente aquelas que adquiriram a asma brônquica enquanto jovens”. Pode ter acontecido “durante os estudos primários, durante a adolescência, aquando das grandes alterações hormonais, ou já no período de adultos-jovens”, esclareceu Luís Taborda Barata, que também é docente da Faculdade de Ciências da Saúde da UBI.
Mais exactamente, e considerando o problema na sua globalidade, pode dizer-se que cerca de 60 por cento dos asmáticos sofrem de asma alérgica, pertencendo os restantes ao grupo dos portadores de asma não alérgica, aquela para a qual os alergologistas não conseguem encontrar uma causa terceira, que tenha a ver com o meio ambiente: proteínas localizadas essencialmente no espaço doméstico (as dos ácaros, dos fungos…), ou as que existem no exterior (as do pólens, gramíneas, ervas, árvores…).
Fonte: Jornal do Fundão